19.02.2026 22H55
A Microsoft apresentou novos resultados do Projeto Silica, uma iniciativa de pesquisa focada em criar um sistema de armazenamento digital em vidro capaz de preservar informações por milênios. O estudo, divulgado na Nature nesta quarta-feira (18), detalha avanços técnicos que tornam a tecnologia mais eficiente, acessível e próxima de aplicações reais.
Desde 2019, a equipe da Microsoft Research desenvolve uma alternativa aos dispositivos tradicionais, que exigem cópias frequentes e ambientes altamente controlados. Agora, os pesquisadores demonstram melhorias na gravação, leitura e durabilidade dos dados.
O Projeto Silica utiliza vidro de silício altamente puro, material resistente a variações de temperatura, umidade e interferências eletromagnéticas. Enquanto centros de dados convencionais consomem grande quantidade de energia para manter discos rígidos e fitas magnéticas em condições ideais, o vidro permite armazenamento offline sem necessidade de controle atmosférico constante.

O processo ocorre em quatro etapas: gravação, armazenamento, leitura e decodificação.
Primeiramente, um laser ultrarrápido de femtossegundo grava os dados dentro da placa de vidro. Em seguida, o sistema organiza os bits em símbolos. Cada símbolo corresponde a um voxel — um pixel tridimensional — criado no interior do material.
Depois disso, o equipamento registra os voxels camada por camada, de baixo para cima, até preencher toda a espessura do vidro. Posteriormente, um microscópio automatizado captura imagens dessas camadas. Por fim, algoritmos de inteligência artificial interpretam os padrões e restauram os dados no formato original.
Capacidade de armazenamento e desempenho técnico
Os números apresentados impressionam. Segundo o estudo, o sistema atinge velocidade de gravação de 65,9 megabits por segundo e densidade de 1,59 gigabits por milímetro cúbico.
Na prática, um fragmento de vidro de apenas 12 centímetros quadrados e dois milímetros de espessura pode armazenar cerca de 4,84 terabytes. Esse volume equivale, por exemplo, a aproximadamente dois milhões de livros ou cinco mil filmes em 4K.
Além disso, os cientistas estimam que os dados permaneçam legíveis por até dez mil anos, mesmo sob temperaturas de 290 °C. Embora fatores como danos físicos ou corrosão química possam afetar o material, o vidro demonstra resistência muito superior às mídias atuais.
Novo material reduz custos e amplia viabilidade comercial
Um dos avanços mais relevantes envolve a substituição da sílica fundida de alta pureza pelo vidro borossilicato. Esse material, comum em utensílios domésticos e portas de forno, apresenta menor custo e maior disponibilidade.
Consequentemente, a mudança reduz barreiras para futura comercialização. Além disso, os pesquisadores simplificaram o hardware. O leitor das placas agora opera com apenas uma câmera, o que diminui tamanho e preço do equipamento. Ao mesmo tempo, os dispositivos de escrita passaram a exigir menos componentes, facilitando fabricação e manutenção.

Entre as inovações técnicas anunciadas, destacam-se:
- Redução do número de pulsos necessários para formar voxels birefringentes;
- Escrita em “pseudo-pulso único”, que acelera a gravação;
- Desenvolvimento dos chamados “phase voxels”, que modificam a fase do vidro com apenas um pulso;
- Gravação simultânea de múltiplos voxels com sistema de feixes múltiplos;
- Uso de aprendizado de máquina para otimizar codificação e decodificação;
- Método óptico não destrutivo para avaliar envelhecimento das gravações.
Casos de teste e aplicações já realizadas
Como prova de conceito, o Projeto Silica já armazenou o filme “Superman”, da Warner Bros. Discovery, em vidro de quartzo. Além disso, a Microsoft firmou parceria com o Global Music Vault para preservar músicas sob gelo por até dez mil anos.
Outro experimento relevante inclui o “Golden Record 2.0”, um arquivo digital colaborativo com imagens, sons e músicas criado para representar a diversidade humana ao longo das gerações.
Esses testes demonstram que a tecnologia já funciona em escala experimental e pode atender demandas culturais, científicas e históricas.
O desafio global do crescimento exponencial de dados
A produção mundial de dados quase dobra a cada três anos. Por isso, governos, empresas e instituições culturais buscam soluções de armazenamento mais duráveis e sustentáveis.
Atualmente, fitas magnéticas e discos rígidos apresentam vida útil limitada e exigem migração constante de informações. Como resultado, os custos operacionais aumentam e o risco de perda cresce ao longo do tempo.
Diante desse cenário, o armazenamento em vidro com laser de femtossegundo surge como uma das alternativas mais promissoras. A publicação do estudo permite que outros centros de pesquisa ampliem os testes e acelerem a evolução da tecnologia.
Fonte: Olhardigital